domingo, 23 de maio de 2010

O Dominó Preto (Florbela Espanca)

Antes de mais peço desculpa por não ter publicado nada nos últimos tempos, mas tenho andado sem ideias do que publicar.

Hoje deixo aqui o reconto que fiz para uma apresentação em português do conto "O dominó Preto" in A Charneca ao Entardecer de Florbela Espanca (é um pouco grande mas não deu para ficar mais pequeno) :

                Há já mais de 8 anos que andava atrás dela e só agora conseguira que ela se resolvesse a ouvi-lo. Ainda ele estava moço na mercearia, ainda nem sonhava que lhe haviam de dar sociedade na casa, nem tinha amealhado os seis contos de réis que tinha agora, já gostava dela, de a ver passar com muita graça e delicadeza, e de ouvir os seus gritinhos quando punha o pé em falso, era uma senhora de uma classe superior há de Joaquim. Quando ela entrava na loja, aquele cubículo triste e escuro parecia tornar-se num salão deérico, todo cheio de luzes e muito bonito. Joaquim até se esquecia dos pedidos dos clientes por estar concentrado a admirar a sua amada, uma rapariga risonha que sem piedade gozava com ele sempre que podia.
                Passava tempos a fim a passar contas do seu rosário de recordações, recordações essas sobre o tempo que andou inutilmente atrás da jovem. Joaquim sempre gostou daquela e só daquela, de mais nenhuma, e um dia, já lá iam dois anos, cheio de coragem contou-lhe o que sentia. Maria soltou uma gargalhada na cara dele, gargalhada essa que ainda tem nos ouvidos, divertida e escarnecedora gargalhada que o havia feito chorar.
                Joaquim era um pobre diabo, mas queria-a com todo o ardor dos seus vinte anos, queria ganha-la custasse o que custasse, mesmo que tivesse de andar de rastos atrás dela o resto da sua vida. Tinha tempo! E assim fez, trabalhou sem descanso e sem desalento, meses e meses sem um único dia de descanso, desde o luzir do Sol no alto até noite fechada, mal pago e mal alimentado. Foi servo de toda a gente e fazia qualquer trabalho.
                Passado algum tempo, o patrão dele, dono da loja, lá deu pela existência de Joaquim, e num belo dia deitando contas ao lucro que poderia vir a ter duma boa acção, mandou alguém ensina-lo a ler. Então todas as noites, exausto e sem forças, lá ia Joaquim para a cave húmida ligada à loja, local onde dormia, o pobre lá ia fazendo grandes esforços para aprender a ler, com uma enorme força de vontade para se manter concentrado. Uma noite, ao estudar a lição, deu com o nome dela: «Maria». Soletrou-lhe duas sílabas, de olhos arregalados, boca aberta e em êxtase, ficou mais de meia hora a chorar enquanto soletrava o nome da amada: «Maria».
                E os anos foram passando e pouco a pouco ele foi subindo na sociedade, juntando dinheiro à custa de se privar de tudo e de se matar a trabalhar; mas conseguira juntar os seis contos de réis conseguindo alcançar sociedade na casa, dando-lhe assim um lucro certo que não era de desdenhar. Mas continuava atrás de Maria e só pensava que quando a tivesse não lhe iria faltar nada, desde o casaco de pelúcia até aos sapatos de verniz para sair à rua.
                Durante todos os anos Joaquim sempre fora rejeitado por Maria, até ontem… Ah ontem! E Joaquim fechava os olhos no ardor do desejo e no orgulho de a sentir finalmente conquistada, e pensava em coisas belas. Mas no meio de tudo lembrava-se do que lhe diziam a respeito de Maria, coisas nada boas, mas nas quais ele não acreditava. Como se fosse possível que uma rapariga como ela não fosse séria, que não tivesse juizinho nenhum, que não o queria a ele e que andava metida com gente no teatro. Mas Joaquim sempre se iludiu não acreditando em nada e sempre defendendo Maria. Mas agora, no banco da avenida, Joaquim esperava feliz por ela que havia prometido vir: «Às dez horas lá estarei, no primeiro banco à direita de quem sobe, um pouco acima da Avenida, lá estarei, espere por mim, sem falta.».
                Mal anoitecera e Joaquim já estava à sua espera no banco, pois tinha medo que Maria se lembrasse de ir mais cedo ou de ter percebido mal as palavras dela e não a queria deixar à sua espera. Ele estava doido! Não era admiração se tivesse trocado as horas ou não tivesse ouvido bem. Mas estava ansioso, por ao fim de tantos anos, finalmente ter ouvido um sim dela, que sim iria falar com ele, combinarem a sua vida, trocarem promessas e falarem de amor. Distraído com pensamentos, perdeu noção das horas, e com medo de que ela tivesse passado e ele não a tivesse visto olhou para o relógio de bolso, no dominó preto que vestia. Havia sido um pedido dela, visto ser Terça-Feira Gorda… «Leve um dominó preto, com um laço azul no ombro, para o conhecer. Havemos de nos divertir muito!», e assim ele fez. Ele sorria bastante, mas ao olhar para o relógio e ver que passavam 30 minutos da hora combinada, o sorriso gelou-lhe. Começou a entrar em pânico mas lá se acalmou e pensou, que não vali a pena, como ela era uma mulher séria iria aparecer, aliás por ser mulher é normal que se atrase pois tinha de se aperaltar toda. A noite foi passando, uma da manhã, duas da manhã e nem sinais dela. Ele ficou lá na esperança de que ela ainda viesse, tomando atenção a toda a gente que por ali passa-se. Às três da manhã começou a convencer-se de que ela não iria aparecer, e a pensar que tudo o que lhe haviam dito à cerca de Maria era verdade e a pensar em todos os esforços que havia feito para chegar onde estava agora só por causa dela que haviam sido feitos em vão. Às quatro da manhã continuava lá à espera dela, mas sabia que a intenção dela sempre havia sido não aparecer no encontro para troçar dele, e estava ele ali sentado a chorar, mais triste que qualquer pessoa no mundo. Num arranco, apalpou no bolso das calças, com a mão crispada, o canivete que trazia sempre; de olhos fechados, a boca torcida num ricto odioso, abriu-o e enterrou fundo no pulso a estreita lâmina afiada. O sangue jorrou como um repuxo e sem pensamentos, dobrou-se sobre si mesmo, e de olhos muito abertos deixou-se ficar a contemplar, com um ar muito pasmado, o sangue a escorrer-lhe pela mão, pelo braço, em grossos traços negros até ao chão.
                E ali ficou ele sem se conseguir levantar devido à fraqueza e tontura, sentado no banco sozinho invadido por um grande e estranho bem-estar. De repente ele ouve passos a aproximarem-se, faz um esforço para levantar a cabeça e tentar ver, através do nevoeiro quem vinha lá. Seria ela? Mas à medida que os passos se aproximavam ele viu que era um grupo de amigos que vinham de um baile, talvez…
                Ao passarem por ele uma das mulheres disse:
                -Olha aquele no banco, parece um faz-tudo.
                - Está bêbado – disse a outra.
                E seguiram caminho a rir-se dele.
                A madrugada aproximava-se e ele lá conseguiu mexer os braços e endireitar-se, mas voltou a deixa-los cair e ali ficou, muito estendido no seu banco, com um sorriso nos lábios, iludido e contente. Então o céu ficou num tom pálido de azul-esverdeado. Despontava a madrugada.

Pintura a óleo de Sergei Chepik, "Lonliness"

4 comentários:

Andreia disse...

Fixe :D

catarina ღ disse...

Acaba assim?!
Eu aqui toda entusiasmada -.-
Gostei bué. Bem que me tinhas dito que as histórias dela eram todas de sofrimento.
Até tive pena do rapaz. Tanto tempo e tanto esforço para depois ela gozar com ele.

Andreia disse...

É assim, eu vou fazer de conta que não li isso devido à boa música que toca mal entro aqui.

silênciodosegredo. disse...

Amei :o